#ElaspeloDireitoàCidade – Quando o sonho por moradia digna ecoa em muitas vidas

#ElaspeloDireitoàCidade - Quando o sonho por moradia digna ecoa em muitas vidas

Empatia é o que move Simone Inocêncio Teixeira, 46 anos.  Quando saiu de Damolândia (GO), aos 14 anos, rumo à capital, sua família se viu em dificuldades para se manter e ao mesmo tempo pagar por um aluguel.  Como ela mesma diz, era “revoltante acompanhar a situação de sua família”. Em 1993, por conta de sua necessidade pessoal, passou a integrar o movimento chamado Sociedade Habitacional Comunitária (SHC). Naquela época, já era casada, estava grávida e continuava no aluguel. Ao saber do movimento, se associou e começou a participar das reuniões. “Morava em um espaço com dois cômodos e um banheiro “, conta.

A empatia mencionada acima se deve ao fato de que o engajamento da luta por melhores condições de vida e habitação atendeu a muitas e muitas famílias atendidas pelo movimento, sem que ela própria fosse contemplada. Um dos primeiros projetos do qual participou foi o do Vale dos Sonhos, desde a compra até a regularização do terreno para o início das obras.  O terreno, a partir de muita luta, foi colocado na extensão urbana, onde hoje moram mais de mil famílias, incluindo alguns parentes de Simone. Sua atuação foi percebida e, em seguida, foi convidada a liderar o Movimento pela Reforma Urbana de Goiânia (MRU-GO). “Me destaquei no grupo por ter postura e pela minha dedicação em transformar vidas”, afirma.

E mesmo após a conquista de sua casa, ela seguiu (e segue) atuando por muitas outras pessoas que passaram o mesmo que ela. “Tive uma mudança de vida a partir do que conquistei, mas porque não seguir em frente para ajudar os outros?”. Assim como não desanimou quando não foi contemplada nos primeiros projetos, não arrefeceu quando teve seu nome incluído em um projeto social habitacional. “Depois de realizado meu sonho, vi que o mesmo poderia ser sonhado por outros”.

Vinte anos após ter ingressado no movimento, ela consolidou sua conquista. Essa mãe de um casal de filhos e avó de dois netos hoje é moradora do Residencial Xangrilá, ao norte de Goiânia, considerado um dos “filhos’” do empreendimento Vale do Sol. “Adquirimos glebas de terras financiadas e, depois, veio a luta pela construção, que foi feita 30% em regime de mutirão e, o restante, com a participação das próprias famílias”, conta. “Estou há 28 na luta e posso dizer que a participação popular faz você despertar de uma forma estrondosa, especialmente quando você ama o que faz”, garante a líder do MRU-GO, organização que conta com 1.800 associados que mantêm o mesmo sonho que ela.

Foto: Arquivo Pessoal/Simone Teixeira.

Texto: Luciana Radicione (FNA).

#ElaspeloDireitoàCidade – Marli Carrara: uma militância fervorosa que contrariou sua própria origem

#ElaspeloDireitoàCidade - Marli Carrara: uma militância fervorosa que contrariou sua própria origem

“Ninguém levanta um dia e diz: hoje vou participar de um movimento. Você vai sendo envolvido aos poucos e vai dando o seu melhor. Aquilo que a vida te fez aprender”. Com essa frase, a ativista Marli Carrara, 65 anos, resume a forma como foi motivada a se engajar na luta diária pelo direito à habitação.  Ela não sabe se foi um despertar ou se já estava no sangue. O fato é que desde 1999 integra o Movimento Nacional de Luta por Moradia (UNMP), entidade que escolheu para se associar, militar e liderar em Salvador, sua cidade do coração.

Graduada em Pedagogia, Marli tem uma história diferente de muitas líderes que acabaram ingressando em movimentos sociais. Natural de Americana (SP), sua família sempre teve uma vida considerada tranquila e seus pais, conta ela, não entenderam muito bem os motivos que a levaram a fincar raízes em Salvador.  O primeiro contato na capital da Bahia foi em 1984, quando foi para lá com o seu marido na época, atrás de uma proposta de trabalho. Ela foi para uma vaga na iniciativa privada, e a vida seguia seu rumo, sem sobressaltos.  Mas quando se separou resolveu voltar para Americana, onde ficou por apenas quatro meses junto com a filha Manuela, na época com apenas quatro anos. “Não me sentia em casa, acabei voltando para cá (Salvador) sem emprego, sem casa e sem perspectiva”, recorda.

Após um período de 40 dias abrigada na casa da madrinha da filha, o ex-marido alugou uma moradia em uma comunidade de Salvador para ela e a filha. Ali, as coisas começaram a ganhar uma nova perspectiva que mais tarde iria definir a sua trajetória. “As coisas eram novas, eu tinha que andar a pé, pegar ônibus, vivenciar uma realidade que desconhecia. Foi uma experiência que me marcou muito. Foi uma opção que muito pouca gente entendeu, mas da qual não me arrependo”.

Na comunidade onde morava, aos poucos, foi tomando parte das demandas, carências e conflitos das famílias que não tinham uma moradia digna. Ao mesmo tempo em que ampliava o seu conhecimento sobre as mazelas da comunidade, ampliava o número de amigos, fazia contatos e concluía o curso de Pedagogia. “Naquela época, não tinha a menor ideia do que era política, nem mesmo sabia onde ficava a Prefeitura e a Câmara de Vereadores”, relata. Mas amigos em comum acabaram indicando seu nome para ocupar uma vaga na Câmara de Vereadores, mais especificamente no gabinete do arquiteto e urbanista Zezéu Ribeiro, onde ficou por 15 anos.

Como vereador, Zezéu mantinha muitos contatos com lideranças de comunidades de Salvador, recebia diversas denúncias de remoções, indenizações a preços absurdos – todo tipo de mazelas chegava ao seu gabinete. Uma dessas denúncias, porém, levou Zezéu e sua equipe a Brasília na tentativa de discutir de perto com parlamentares uma solução para um despejo iminente. “Fomos de ônibus, e lá na Esplanada já estavam alguns movimentos fazendo reivindicações. Ali conheci a UNLM”.

Encontros, reuniões, filiação e liderança do movimento no Estado. Se antes sua atuação era reconhecida apenas na comunidade, depois do episódio em Brasília isso começou a mudar. A integração com o movimento foi aos poucos. Em 2003, após a eleição do presidente Lula, iniciou-se a preparação para a 1° Conferência das Cidades, espaço onde se aproximou definitivamente da UNLM e nunca mais saiu. “Sempre gostei dessa área, sempre tive um pé na sociedade civil e, com os projetos do governo e curso, em 2004 comecei a me dedicar 100% a projetos de moradia e de construção”, afirma.  A parte administrativa/burocrática de projetos passou a ser com ela – e um deles é justamente onde vive atualmente. O Condomínio das Mangueiras é resultado de muita luta que envolveu desde a garantia da terra, contratação da obra e seu efetivo início, em 2014. O local é a casa de 614 famílias em Salvador, e cada canto do empreendimento é motivo de emoção para Marli. “O primeiro tijolo na minha casa fui eu mesma que coloquei”.

Sua atuação no mundo dos movimentos sociais – líder da UNMP-BA e as conquistas feitas juntos às famílias ainda lhe rendeu muitos frutos. Além de uma filha que também está na coordenação do mesmo movimento – resultado de muita ida com a mãe às assembleias dominicais – Marli Carrara tem orgulho em dizer que foi eleita por três gestões para o Conselho Nacional das Cidades e do CONCIDADES-Bahia – Conselho nacional das Cidades do Estado da Bahia. Mas aquele que considera o maior reconhecimento veio em março de 2018, quando recebeu o título de cidadã soteropolitana.  “Uma paulista que abraçou a Bahia e constrói esperança na luta do povo sem moradia”, postou a UNLM em sua rede social, na época.  E Marli completa: “Por aí a gente percebe que não fez tanta besteira na vida”, brinca.

Foto: MNLM-BA/Divulgação.

Texto: Luciana Radicione (FNA).

#ElaspeloDireitoàCidade – Julieta Abraão, uma ativista que põe a mão na massa

#ElaspeloDireitoàCidade - Julieta Abraão, uma ativista que põe a mão na massa

Empreendimento de Habitação de Interesse Social, o Condomínio da Rua do Barra do Jacaré, na capital paulista, tem muito do suor da ativista Julieta Aparecida Abraão, uma mulher de 55 anos, quatro filhos, um neto e muita vontade de transformar vidas. O projeto, como ela mesma diz, consumiu praticamente todo os últimos anos de seu trabalho para ver nascer e acompanhar a ocupação dos apartamentos por 592 famílias em 23 de novembro de 2019. A data é marcante, pois os moradores conseguiram entrar em suas casas antes mesmo da assinatura do contrato pela Caixa. “Entre a finalização da obra até a parte da legalização é muito tempo. Lembro quando foi assinado o contrato de início da obra avisei que quando estivesse 100% concluída as famílias iriam entrar. Não ia deixar ninguém invadir o que as famílias demoraram anos para ocupar”, disse, na época, ao pessoal do banco.

A conquista veio depois de muita luta dos integrantes dos movimentos dos quais está engajada: é coordenadora nacional da Central dos Movimentos Populares (CMP-SP), ligado à União dos Movimentos de Moradia de São Paulo (UMM-SP), e uma das líderes do Movimento dos Moradores da Zona Oeste e Noroeste da capital, este que ‘revelou’ a ativista Julieta, ainda na década de 1990.

Na época com três crianças, morando de aluguel em uma casa nos fundos de um terreno com outras nove casas, a vida era muito difícil, onde praticamente todo o recurso que entrava era para pagar a moradia. “Iniciei minha luta por moradia por uma necessidade própria, mas muito antes de eu conquistar a minha própria casa, centenas de famílias tiveram a sua pelo trabalho de articulação, mutirão e engajamento”, afirma. O empurrão para a causa veio de freiras que comandavam uma creche que seus filhos frequentavam. “Ou vocês levantam da cadeira e lutam para conseguir as coisas ou ninguém vai dar nada para vocês”, repete a frase de uma das religiosas. Ela, assim como os pais de outras crianças, saiu de lá motivada. Juntos com as freiras foi montado um grupo para buscar áreas possíveis de ocupação. Foi difícil, não tinham experiência e muito menos contatos de pessoas certas que poderiam ajudar.

“Descobrimos o movimento da zona oeste e permanecemos briga até sair a regularização de um terreno e os 256 apartamentos em um empreendimento localizado no Jaraguá. Mas eu não entrei de imediato, só consegui ocupar em 1999”, recorda. O empreendimento, pelo perfil da habitação, destoa da realidade atual. São habitações de 64 metros quadrados onde uma parte das famílias foi beneficiada diretamente pelo movimento popular e outra por programa de financiamento do governo.

Além da luta nas ruas, do engajamento de base e da parte administrativa do movimento, Julieta está envolvida diretamente na administração de condomínios, uma forma de autogestão que nasceu dentro do movimento recentemente. A nação se deu até como uma forma de estar presente no pós-ocupação, além de reduzir custos dos moradores com a contratação do serviço por terceiros. Por enquanto o projeto condominial está sendo feito apenas no empreendimento Barra do Jacaré, que já vem colhendo os frutos da autogestão: os funcionários são os próprios moradores, que mesmo sem experiência em funções específicas, são motivados ao trabalho. “Ao longo desse tempo todo de luta no movimento fizemos 35 projetos de mutirão e vimos que em todos eles não havia uma continuidade no acompanhamento das famílias. Foi assim que nasceu essa ideia’, pontua.

Julieta, dona de casa, mãe, avó e referência por anda passa – respeitada até mesmo pelos trabalhadores das obras que acompanha de perto e mete a mão na massa – tem muito orgulho de sua trajetória e de ter conseguido criar quatro filhos paralelo à militância. “A gente consegue ser mulher de movimento e de luta e ao mesmo tempo criar os filhos e ainda abraçar os netos”, garante.

Foto: Julio Cesar Abraão.

Texto: Luciana Radicione (FNA).

#ElaspeloDireitoàCidade – Live debate garantia do direito à cidade a partir de lutas contra discriminações

#ElaspeloDireitoàCidade - Live debate garantia do direito à cidade a partir de lutas contra discriminações

Para encerrar a ação ELAS PELO DIREITO À CIDADE, criada para destacar o protagonismo feminino no enfrentamento das mazelas das cidades, a Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA) vai realizar uma live para discutir sobre o assunto. A vice-diretora geral do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico (IBDU), Fernanda Carolina Costa, será uma das convidadas.

A live acontece no dia 31 de março, às 19h. Além de Fernanda, os movimentos populares de luta pela moradia serão representados também por Ceniriani Vargas da Silva, do Assentamento 20 de Novembro e do Movimento Nacional de Luta por Moradia em Porto Alegre (RS), e por Sarah Marques do Nascimento, do coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste, de Recife (PE). A live integra a programação virtual do Congresso Mundial de Arquitetos (UIA 2021).

Quem mediará a conversa será a presidente da FNA, Eleonora Mascia, ao lado do secretário de Políticas Públicas e Relações Institucionais da FNA, Patryck Carvalho. Conforme Eleonora, é fundamental dialogar com os movimentos populares e trazer a pauta da reforma urbana aliada à pauta feminina, com a visão de que é preciso romper com qualquer tipo de segregação, com cidades inclusivas para todos. “Essas líderes, chefes de família, buscam melhorias para si, para seus filhos e todo o seu entorno. Sabemos que quando um local é seguro para mulheres, ele provavelmente também será seguro para crianças, para idosos, enfim, para todos.”, pontua.

Para assistir a live, clique aqui.

#ElaspeloDireitoàCidade – Destino: apropriar-se da luta pelo direito à cidade

#ElaspeloDireitoàCidade - Destino: apropriar-se da luta pelo direito à cidade

Ainda jovem, aos 18 anos, Neila Gomes dos Santos iniciou seu engajamento pelas causas sociais quando atuava na Pastoral da Juventude de sua cidade. Mas foi na Faculdade de Serviço Social, em 2005, que sua visão compromissada com o próximo se ampliou. Como ela mesma diz, foi ali que efetivamente começou sua militância.

Moradora de área de risco em Manaus, sempre teve a necessidade de debater sobre a questão da habitação social, especialmente sobre os Igarapés de Manaus. Fez TCC sobre o direito à moradia, mais acabou abordando muito mais o movimento popular.  No curso, se apropriou da política das cidades, cresceu seu envolvimento, o que acabou a levando para a liderança do MNLM em Manaus, movimento que ela mesma ajudou a levar para a sua cidade, em 2010.

Um ano antes, em 2009, montava grupos de famílias para ir em busca de suas demandas. Na comunidade de São Sebastião, no bairro Petrópolis, se uniu à associação de moradores, integrou mais tarde a diretoria e colocou-se à disposição das famílias para iniciar efetivamente a luta, que culminou na junção de outras comunidades que deram início ao MNLM de Manaus.

Uma das muitas conquistas a partir dali foi a liberação de uma área da União para a construção de 600 habitações de interesse social graças a uma primeira ocupação de prédio público realizada pouco antes. “Foi a ocupação que favoreceu a construção em uma área pelo Minha Casa, Minha Vida. Outra luta importante que ainda permanece é o das famílias da área chamada Igarapé da Cachoeira Grande, moradores de palafitas em área caudalosa.  “Nossa reivindicação era pela manutenção das famílias no local, mas com infraestrutura e moradia digna pois não queremos nunca perder nossas origens”, afirma. “Um incêndio acabou por derrubar as palafitas, e foi quando o movimento foi para as ruas pressionar pelo aluguel social e pelo seu efetivo pagamento”, conta. Hoje, das 510 famílias, apenas 20 – entre as que estavam na área incendida – não foram contempladas. Segundo Neila, a luta continua para que ocorram as construção na Cachoeira Grande, mas há muita contenção de recursos por parte do governo e na cedência de contrapartidas financeiras de organismos internacionais. Esse, no entanto, permanece como uma das principais demandas do movimento no Amazonas.

Aos 52 anos, além de brigar por direitos essenciais, Neila se depara com a realidade de mulheres que integram a luta, o que muitas vezes impede um ‘entrar de cabeça’ no movimento. “Mulheres e mães formam a maior base do movimento, nas ocupações e na luta. Elas têm esse papel porque sentem na pele a necessidade de suas famílias. Mas ainda temos dificuldade em nos tornarmos referência representativa justamente porque precisamos também nos voltarmos à família. Esse é mais um desafio pela frente e não nos resta muita opção além de sermos fortes nessa luta’, pontua a líder do MNLM e mãe de três filhos.

Foto: Cila Reis.

Texto: Luciana Radicione (FNA).

#ElaspeloDireitoàCidade – Uma militância que nasceu da necessidade de brigar pelo direito à moradia

#ElaspeloDireitoàCidade - Uma militância que nasceu da necessidade de brigar pelo direito à moradia

Aos 26 anos, Ana Paula da Silva viu em uma ocupação a única alternativa de sobrevivência. Era isso ou a rua. Na época como empregada doméstica que dormia no serviço e ao mesmo tempo estudante do curso de técnica em enfermagem, ela teve que optar pelo trabalho (e casa) ou um estágio obrigatório do curso. Ela escolheu o estágio, pelo tempo já dedicado e pelo investimento já feito nessa formação.

Ali, ela praticamente foi empurrada para a ocupação onde sua mãe já estava com seus outros três irmãos.  A ocupação do Arruda, em Recife, já era o segundo onde sua mãe possuía casa – a família natural de Bonito (MS) se mudou para Recife em busca de melhores condições de vida, mas se depararam com um mercado imobiliário opressor.  “Minha mãe não teve alternativas e foi para a sua primeira ocupação, a de Campo Grande, também em Recife. Naquela época, aos 22 anos, optei por ficar na casa da família”, conta Ana Paula.

A mudança para o Arruda foi mais do que uma oportunidade de morar, mas um abrir de portas para a militância e o engajamento no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)/ União Nacional por Moradia Popular (UNMP). “Ali percebi a importância da organização em um movimento de moradia. Me tornei militante, participei de grupos de juventude até receber o apoio para chegar à coordenação estadual e nacional do movimento”, relata Ana Paula.

A situação de vulnerabilidade de sua família e de muitas outras continuou, o que mudou foi a percepção de que lutar era preciso. E mais do que uma articulação local, viu que sem uma formação e um entendimento político, as demandas não iam para a frente. “Resolvi cursar Assistência Social, me formei e hoje sou responsável por todos os projetos sociais do MTST”, afirma. Hoje, aos 38 anos, também está na coordenação nacional da UNMP como secretária nacional das mulheres.

Seu trabalho nas ocupações passava pelo tradicional diagnóstico das famílias para a escolha de qual seria contemplada com as habitações. O envolvimento naquela época contava com a possibilidade de financiamento a baixo custo para as famílias através do programa Minha Casa, Minha Vida, desmantelado pelo atual governo. Com muita luta, o movimento conseguiu casa para mais de 5 mil famílias no estado de Pernambuco. Ela própria teve a sua conquista e hoje é moradora na cidade de Paulista, na região metropolitana de Recife.

A militância continua, assim como o seu papel de cuidar dos projetos sociais da cidade de Paulista, no cargo de assistente social da Diretoria de Regularização Fundiária da Secretaria Municipal de Infraestrutura.  Mesmo com todos os percalços pelos quais passou, Ana Paula sabe que tomou a decisão certa ao escolher lá atrás pela carreira que acabou não exercendo, mas que a levou para uma outra trajetória cheia de conquistas.

Foto: Arquivo Pessoal/Ana Paula da Silva.

Texto: Luciana Radicione (FNA).

#ElaspeloDireitoàCidade – Braço forte pela dignidade das comunidades do Rio de Janeiro

#ElaspeloDireitoàCidade - Braço forte pela dignidade das comunidades do Rio de Janeiro

Elizete da Silva Napoleão sempre esteve próxima dos movimentos comunitários desde os 14 anos. Como moradora do Morro do São Carlos, trabalhava comunitariamente por conta da necessidade dos moradores: na década de 1970 não tinha luz nas favelas do Rio e sempre foi necessária a organização em associações para buscar políticas públicas. Aos 23 anos, quando se casou, foi para a Zona Sul, na comunidade do Cantagalo. Lá, seguiu na militância, se aproximou da associação de moradores local e, em 1995, reuniu um grupo de mulheres costureiras como forma de gerar renda local. Além de fomentar a renda das famílias com a mesma profissão que desempenhava desde jovem, a iniciativa foi a solução encontrada para evitar que as mulheres transitassem para fora da comunidade por causa da violência. O grupo de costureiras se tornou referência não só pela luta dos direitos das mulheres, mas também por tantas outras demandas da comunidade.

Por conta de sua militância, foi reconhecida e acabou se tornando líder do MNLM no Rio e, hoje, também é a coordenadora nacional do movimento pelo seu Estado.

Natural da capital fluminense, casada e mãe de quatro filhos, Elizete relata que por conta de sua atuação na comunidade onde morava, se interessou por leis que na prática deveriam proteger as famílias mais vulneráveis. Foi estudar Direito e, lá, numa atividade de extensão, conheceu o MNLM. “Me interessava muito por leis e por políticas públicas, então essa aproximação com o movimento, que aconteceu em 2004, foi algo natural.  Minha visão se ampliou, pois não se discutia só território, mas cidade. Me engajei totalmente na luta por moradia na linha do direito e função social da propriedade, e pela manutenção do artigo 6 da Constituição que garante a moradia como direito social fundamental”, afirma.

Diplomada em Direito em 2010, era basicamente o que faltava para definir seu caminho. Iniciou seu trabalho em ocupações, fazendo mapeamento e diagnósticos de espaços possíveis de serem habitados, especialmente prédios públicos. Ela é uma das beneficiadas pela atuação do movimento. Hoje, é moradora da ocupação Manuel Congo, localizada no centro do Rio, ao lado da Câmara de Vereadores. A ocupação, que já tem 13 anos, serve de exemplo de como um prédio público abandonado pode ser transformado em um local de habitação popular. A estrutura era do INSS, posteriormente transferido ao Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro (Iterj), mas foi adquirido pelo Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS) e reformado com verbas do programa Minha Casa Minha Vida Entidades, modalidade voltada à moradia acessível a famílias organizadas por meio de cooperativas habitacionais, associações e demais entidades privadas sem fins lucrativos

Quando Elizete ingressou no movimento, as lideranças eram basicamente masculinas. “Eles mandavam e as mulheres executavam. A chegada das mulheres nas coordenações estadual e nacional foi fruto de muita luta, da sensibilidade de entender o que é o direito à moradia e de manter sempre acesa a chama em busca de uma sociedade mais justa e igualitária” pontua a líder do MNLM do Rio.

Arte/foto: MNLM/Rio.

Texto: Luciana Radicione (FNA).

#ElaspeloDireitoàCidade – Uma militância pelo social iniciada aos 17 anos que se renova a cada dia

#ElaspeloDireitoàCidade - Uma militância pelo social iniciada aos 17 anos que se renova a cada dia

Uma militância social que vem desde os seus 17 anos, algo que já estava no DNA de Adriana Oliveira , 47 anos, já que sua mãe era militante de movimentos comunitários. A sua própria trajetória começou junto à associação de moradores de um bairro chamado Japãozinho, na periferia de Aracaju, em Sergipe. Esse engajamento a empurrou naturalmente para outras frentes de luta e, hoje, Adriana é diretora nacional da Conam Mulher (Confederação Nacional das Associações de Moradores), onde já está em sua quarta gestão. Além disso, preside a Federação Estadual das Entidades Comunitárias de Sergipe, filiada à Conam.

A associação de moradores do Japãozinho foi a ‘cama elástica’ que a fez saltar para uma realidade tão diferente daquela que vivia e conhecia.  “Tudo começou a mudar quando fui convidada a participar de um congresso nacional da Conam, em Brasília”, afirma Adriana, que não recorda o ano em que o evento ocorreu pela quantidade de compromissos atendidos em seus mais de 20 anos de militância. “Foi a partir desse congresso que comecei a ter mais conhecimento, curiosidade, e percebi a importância do trabalho social e comunitário. Não demorou muito para ser convidada a assumir a diretoria da região Nordeste da Conam e, depois, a Conam Mulher’, afirma.

“Na diretoria voltada a assuntos para mulheres, a gente luta por melhor qualidade de vida da sociedade, por políticas públicas para todos, mas também buscamos consolidar o empoderamento feminino em curso. Não queremos ser melhores ou maiores do que os homens, buscamos, sim, a igualdade de direitos. Um dos pontos que mais trabalhamos em tempos de pandemia vem sendo o da violência contra a mulher neste período. Essa, especialmente, é uma luta muito árdua sobretudo nas áreas mais carentes”, afirma.

A atuação junto às comunidades em função da pandemia não comprometeu o trabalho desenvolvido pela Conam Mulher. De acordo com a Adriana, a proximidade vem ocorrendo por meio de redes sociais, grupos de Whatsapp, mensagens de texto pelo celular – ou seja, por meio de plataformas acessíveis às famílias mais carentes.  “Gosto muito do que faço, e a cada dia me inspiro e penso em formas de estar sempre presente nas comunidades”, pontua a diretora da Conam Mulher.

Formada em Assistência Social, casada e mãe de Igor Emmanuel, de 11 anos, Adriana não cansa de agradecer pelo seu destino, e coloca a Conam como a responsável por mostrar a ela o caminho que foi trilhado lá atrás. “Sou grata por todo o conhecimento que tenho hoje, pois foi através da Conam que pude conhecer outras realidades, entender o movimento comunitário e a importância de buscar uma sociedade mais justa e igualitária”, finaliza.

Arte/foto: Conam/Divulgação.

Texto: Luciana Radicione (FNA).

#ElaspeloDireitoàCidade – Força feminina que passa de mães para filhas

#ElaspeloDireitoàCidade - Força feminina que passa de mães para filhas

Assim como hoje carrega suas filhas para as lutas, sua mãe também a carregava. Essa é Ceniriani Vargas da Silva, 33 anos, mãe de Dandara (11) e Tainá (5), moradora do Assentamento 20 de Novembro, em Porto Alegre, coordenadora do MNLM-RS e presidente da Cooperativa de Trabalho e Habitação 20 de Novembro. Há 14 anos, entrou de cabeça no MNLM e foi morar na Ocupação 20 de Novembro, com uma mochila nas costas e muitos sonhos coletivos de transformação social.

O Assentamento é fruto de uma luta que se iniciou em 2006, com a Ocupação  20 de Novembro e se concretiza em um prédio público federal, cuja obra foi abandonada há cerca de 50 anos. Ni, como é conhecida, enfrentou um despejo, uma remoção pelas obras da Copa, muita precariedade e  sentiu na pele cada mudança de prioridades dos governos que foram passando. Mas perseverou junto com o pessoal do movimento até conquistar a concessão do imóvel para 40 famílias de baixa renda.

“Desde criança tenho lembranças de muitas mobilizações comunitárias e reuniões do Orçamento Participativo com minha mãe.  Meus pais quando foram expulsos do campo, na década de 1980, vieram ocupar um cantinho no Morro em Porto Alegre, então, eu nasci e cresci em ocupação. Aprendi na prática que através da nossa organização comunitária fomos conquistando direitos básicos como saneamento, pavimentação, luz e água. Compreendi desde cedo que nós que nascemos pobres temos que lutar para garantir nossos direitos e nos somar ao máximo possível de pessoas”, diz a ativista formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).  Além da própria experiência familiar, Ni trilhou seus próprios passos na luta ainda muito jovem. Foi militante do Movimento Estudantil, Movimentos de Juventude e Movimento Feminista (Ong Themis) e sua aproximação com o MNLM se deu justamente desenvolvendo atividades de formação com a juventude e as mulheres nas ocupações. “Na militância, também descobri que existem universidades públicas, fiz um cursinho pré-vestibular popular e fui a primeira pessoa de minha família a fazer curso superior” relata.

No Assentamento 20 de Novembro, um símbolo nacional de luta pela moradia, serão construídos 40 apartamentos para famílias de baixa renda, com acessibilidade universal, sustentabilidade ambiental e econômica, produção de energia solar, reuso de água da chuva (cisterna), horta orgânica e a separação e comercialização de resíduos recicláveis para redução de custos de condomínio. O projeto prevê também espaços  para geração de renda através do trabalho solidário, espaço cultural, de formação, cozinha comunitária, salão de festas, pracinha, biblioteca e ciranda para as crianças. “É o lugar onde quero que minhas filhas cresçam, com qualidade de vida, mas principalmente sem o risco de sermos despejados novamente”.

Para Ni, o 20 de Novembro representa mais que a conquista das 40 famílias. É um projeto idealizado dentro de uma perspectiva de construção de comunidade e de cidade mais inclusiva e sustentável, uma experiência concreta a ser fortalecida e reproduzida. “O Assentamento é um símbolo da luta pela reforma urbana, representa o lugar pra realizar na prática o que o MNLM, a Confederação Nacional de Associações de Moradores (Conam) – organização parceira do projeto – e seus apoiadores defendem como política habitacional com garantia do direito à cidade para todos e  toda”, afirma.

Arte: MNlM/Divulgação.

Texto: Luciana Radicione (FNA).

#ElaspeloDireitoàCidade – Dona Chica, o nome forte da Cidade do Sol

Dona Chica, o nome forte da Cidade do Sol

A transformação do Sol Nascente/Pôr do Sol em região administrativa foi um marco na vida dos quase 90 mil habitantes do local. Muitas melhorias em infraestrutura foram implantadas nos últimos anos para levar dignidade, qualidade de vida e cidadania à região que, pouco a pouco, vem ganhando nova cara. Muito dessa nova realidade está sendo possível graças a um nome e sobrenome: Francisca Ambrósio do Nascimento, a Dona Chica, 73 anos.

Moradora da Pôr do Sol praticamente desde que chegou à região de Ceilândia (DF), ela participou da construção de uma cidade pela qual lutou desde o início, há mais de 48 anos. Passou por muitos episódios tristes, viu casas serem destruídas, todo tipo de agressão do poder público sobre as centenas de famílias que lá residem. Mas ela nunca esmoreceu e a luta sempre foi grande para alcançar a realidade de hoje. Os setores habitacionais ainda são um sonho em construção, muito precisa ser feito na Cidade do Sol, a 32ª região administrativa do Distrito Federal, uma conquista recente graças a pressão da comunidade liderada por Dona Chica pela aprovação do Projeto de Lei n° 350/2019 que transformou a  Sol Nascente/Pôr do Sol em cidade.

Quem duvida que não seja possível conquistar mais melhorias quando se trata de Dona Chica, prefeita da Pôr do Sol para mais uma gestão, até 2023. Moradora do mesmo local ainda quando a área era tomada por chácaras, ela agora se empenha em reconquistar os R$ 100 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) que não foram liberados a tempo de projeto de obras ter sido licenciado para dar andamento a trechos de pavimentação. “Não teve nenhum parlamentar com a capacidade de impedir que o dinheiro fosse embora. Agora estamos brigando com deputados distritais e federais e senadores para ver se colocam verba de emenda pra terminar as obras de infraestrutura que faltam”, relata.

Dona Chica é uma mulher forte em todos os sentidos. Enfrenta os percalços com a cabeça em pé, o que inclui algumas desavenças com outras lideranças da própria comunidade que volta e meia insistem em ‘cutucar’ o que ela faz. “Eu não me preocupo com isso. Se meus opositores trabalharem em benefício dessas famílias para mim está bom.” Divorciada desde 2004 porque o marido mandou ela escolher ou ele ou a comunidade, hoje ela encontra forças também na sua família de sangue: são 3 filhos (duas mulheres e um homem) e quatro netos (duas meninas e dois meninos). Mas o coração tem espaço para muita gente, como todos lá da Sol Nascente/Pôr do Sol já sabem.

Arte: Carolina Jardine (FNA).

Texto: Luciana Radicione (FNA).