#ElaspeloDireitoàCidade – Uma militância que nasceu da necessidade de brigar pelo direito à moradia

#ElaspeloDireitoàCidade - Uma militância que nasceu da necessidade de brigar pelo direito à moradia

Aos 26 anos, Ana Paula da Silva viu em uma ocupação a única alternativa de sobrevivência. Era isso ou a rua. Na época como empregada doméstica que dormia no serviço e ao mesmo tempo estudante do curso de técnica em enfermagem, ela teve que optar pelo trabalho (e casa) ou um estágio obrigatório do curso. Ela escolheu o estágio, pelo tempo já dedicado e pelo investimento já feito nessa formação.

Ali, ela praticamente foi empurrada para a ocupação onde sua mãe já estava com seus outros três irmãos.  A ocupação do Arruda, em Recife, já era o segundo onde sua mãe possuía casa – a família natural de Bonito (MS) se mudou para Recife em busca de melhores condições de vida, mas se depararam com um mercado imobiliário opressor.  “Minha mãe não teve alternativas e foi para a sua primeira ocupação, a de Campo Grande, também em Recife. Naquela época, aos 22 anos, optei por ficar na casa da família”, conta Ana Paula.

A mudança para o Arruda foi mais do que uma oportunidade de morar, mas um abrir de portas para a militância e o engajamento no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)/ União Nacional por Moradia Popular (UNMP). “Ali percebi a importância da organização em um movimento de moradia. Me tornei militante, participei de grupos de juventude até receber o apoio para chegar à coordenação estadual e nacional do movimento”, relata Ana Paula.

A situação de vulnerabilidade de sua família e de muitas outras continuou, o que mudou foi a percepção de que lutar era preciso. E mais do que uma articulação local, viu que sem uma formação e um entendimento político, as demandas não iam para a frente. “Resolvi cursar Assistência Social, me formei e hoje sou responsável por todos os projetos sociais do MTST”, afirma. Hoje, aos 38 anos, também está na coordenação nacional da UNMP como secretária nacional das mulheres.

Seu trabalho nas ocupações passava pelo tradicional diagnóstico das famílias para a escolha de qual seria contemplada com as habitações. O envolvimento naquela época contava com a possibilidade de financiamento a baixo custo para as famílias através do programa Minha Casa, Minha Vida, desmantelado pelo atual governo. Com muita luta, o movimento conseguiu casa para mais de 5 mil famílias no estado de Pernambuco. Ela própria teve a sua conquista e hoje é moradora na cidade de Paulista, na região metropolitana de Recife.

A militância continua, assim como o seu papel de cuidar dos projetos sociais da cidade de Paulista, no cargo de assistente social da Diretoria de Regularização Fundiária da Secretaria Municipal de Infraestrutura.  Mesmo com todos os percalços pelos quais passou, Ana Paula sabe que tomou a decisão certa ao escolher lá atrás pela carreira que acabou não exercendo, mas que a levou para uma outra trajetória cheia de conquistas.

Foto: Arquivo Pessoal/Ana Paula da Silva.

Texto: Luciana Radicione (FNA).

#ElaspeloDireitoàCidade – Braço forte pela dignidade das comunidades do Rio de Janeiro

#ElaspeloDireitoàCidade - Braço forte pela dignidade das comunidades do Rio de Janeiro

Elizete da Silva Napoleão sempre esteve próxima dos movimentos comunitários desde os 14 anos. Como moradora do Morro do São Carlos, trabalhava comunitariamente por conta da necessidade dos moradores: na década de 1970 não tinha luz nas favelas do Rio e sempre foi necessária a organização em associações para buscar políticas públicas. Aos 23 anos, quando se casou, foi para a Zona Sul, na comunidade do Cantagalo. Lá, seguiu na militância, se aproximou da associação de moradores local e, em 1995, reuniu um grupo de mulheres costureiras como forma de gerar renda local. Além de fomentar a renda das famílias com a mesma profissão que desempenhava desde jovem, a iniciativa foi a solução encontrada para evitar que as mulheres transitassem para fora da comunidade por causa da violência. O grupo de costureiras se tornou referência não só pela luta dos direitos das mulheres, mas também por tantas outras demandas da comunidade.

Por conta de sua militância, foi reconhecida e acabou se tornando líder do MNLM no Rio e, hoje, também é a coordenadora nacional do movimento pelo seu Estado.

Natural da capital fluminense, casada e mãe de quatro filhos, Elizete relata que por conta de sua atuação na comunidade onde morava, se interessou por leis que na prática deveriam proteger as famílias mais vulneráveis. Foi estudar Direito e, lá, numa atividade de extensão, conheceu o MNLM. “Me interessava muito por leis e por políticas públicas, então essa aproximação com o movimento, que aconteceu em 2004, foi algo natural.  Minha visão se ampliou, pois não se discutia só território, mas cidade. Me engajei totalmente na luta por moradia na linha do direito e função social da propriedade, e pela manutenção do artigo 6 da Constituição que garante a moradia como direito social fundamental”, afirma.

Diplomada em Direito em 2010, era basicamente o que faltava para definir seu caminho. Iniciou seu trabalho em ocupações, fazendo mapeamento e diagnósticos de espaços possíveis de serem habitados, especialmente prédios públicos. Ela é uma das beneficiadas pela atuação do movimento. Hoje, é moradora da ocupação Manuel Congo, localizada no centro do Rio, ao lado da Câmara de Vereadores. A ocupação, que já tem 13 anos, serve de exemplo de como um prédio público abandonado pode ser transformado em um local de habitação popular. A estrutura era do INSS, posteriormente transferido ao Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro (Iterj), mas foi adquirido pelo Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS) e reformado com verbas do programa Minha Casa Minha Vida Entidades, modalidade voltada à moradia acessível a famílias organizadas por meio de cooperativas habitacionais, associações e demais entidades privadas sem fins lucrativos

Quando Elizete ingressou no movimento, as lideranças eram basicamente masculinas. “Eles mandavam e as mulheres executavam. A chegada das mulheres nas coordenações estadual e nacional foi fruto de muita luta, da sensibilidade de entender o que é o direito à moradia e de manter sempre acesa a chama em busca de uma sociedade mais justa e igualitária” pontua a líder do MNLM do Rio.

Arte/foto: MNLM/Rio.

Texto: Luciana Radicione (FNA).

#ElaspeloDireitoàCidade – Uma militância pelo social iniciada aos 17 anos que se renova a cada dia

#ElaspeloDireitoàCidade - Uma militância pelo social iniciada aos 17 anos que se renova a cada dia

Uma militância social que vem desde os seus 17 anos, algo que já estava no DNA de Adriana Oliveira , 47 anos, já que sua mãe era militante de movimentos comunitários. A sua própria trajetória começou junto à associação de moradores de um bairro chamado Japãozinho, na periferia de Aracaju, em Sergipe. Esse engajamento a empurrou naturalmente para outras frentes de luta e, hoje, Adriana é diretora nacional da Conam Mulher (Confederação Nacional das Associações de Moradores), onde já está em sua quarta gestão. Além disso, preside a Federação Estadual das Entidades Comunitárias de Sergipe, filiada à Conam.

A associação de moradores do Japãozinho foi a ‘cama elástica’ que a fez saltar para uma realidade tão diferente daquela que vivia e conhecia.  “Tudo começou a mudar quando fui convidada a participar de um congresso nacional da Conam, em Brasília”, afirma Adriana, que não recorda o ano em que o evento ocorreu pela quantidade de compromissos atendidos em seus mais de 20 anos de militância. “Foi a partir desse congresso que comecei a ter mais conhecimento, curiosidade, e percebi a importância do trabalho social e comunitário. Não demorou muito para ser convidada a assumir a diretoria da região Nordeste da Conam e, depois, a Conam Mulher’, afirma.

“Na diretoria voltada a assuntos para mulheres, a gente luta por melhor qualidade de vida da sociedade, por políticas públicas para todos, mas também buscamos consolidar o empoderamento feminino em curso. Não queremos ser melhores ou maiores do que os homens, buscamos, sim, a igualdade de direitos. Um dos pontos que mais trabalhamos em tempos de pandemia vem sendo o da violência contra a mulher neste período. Essa, especialmente, é uma luta muito árdua sobretudo nas áreas mais carentes”, afirma.

A atuação junto às comunidades em função da pandemia não comprometeu o trabalho desenvolvido pela Conam Mulher. De acordo com a Adriana, a proximidade vem ocorrendo por meio de redes sociais, grupos de Whatsapp, mensagens de texto pelo celular – ou seja, por meio de plataformas acessíveis às famílias mais carentes.  “Gosto muito do que faço, e a cada dia me inspiro e penso em formas de estar sempre presente nas comunidades”, pontua a diretora da Conam Mulher.

Formada em Assistência Social, casada e mãe de Igor Emmanuel, de 11 anos, Adriana não cansa de agradecer pelo seu destino, e coloca a Conam como a responsável por mostrar a ela o caminho que foi trilhado lá atrás. “Sou grata por todo o conhecimento que tenho hoje, pois foi através da Conam que pude conhecer outras realidades, entender o movimento comunitário e a importância de buscar uma sociedade mais justa e igualitária”, finaliza.

Arte/foto: Conam/Divulgação.

Texto: Luciana Radicione (FNA).

#ElaspeloDireitoàCidade – O grito do Coletivo Caranguejo Tabaiares pelo direito de resistir e existir

#ElaspeloDireitoàCidade - O grito do Coletivo Caranguejo Tabaiares pelo direito de resistir e existir

Nascida e criada em Caranguejo Tabaiares, comunidade centenária e pesqueira localizada em meio à área nobre de Recife, Sarah Marques do Nascimento, 40 anos, acompanhou ao longo de sua vida o descaso de governos com as mais de 5 mil famílias que habitam o local. A comunidade que vive às margens do rio Capibaribe, além de falta de infraestrutura sanitária ao longo dos anos, em 2018 sofreu um enfrentamento direto da prefeitura: a gestão queria retirar parte das famílias do local para a abertura de uma via para desafogar o trânsito da cidade.

Naquele ano, Sarah trabalhava em um shopping, mas a ameaça a sua comunidade despertou nela o desejo de lutar.  Como ela mesma diz, gritou muito pelo direito dos moradores, e foi esse mesmo grito que a trouxe de volta às suas origens e a levou para o trabalho de defesa da sua comunidade. Dali para frente, criou e coordenou o movimento Caranguejo Tabaiares Resiste, com o apoio dos moradores, num movimento que cresceu e se fortaleceu pelo direito de existir por meio de muita resistência.

Filha de Siraquitan e Norma, que se conheceram e se casaram na mesma comunidade, e mãe solo do casal de gêmeos Rafael e Juliana, 14 anos, Sarah conta que o seu despertar veio quando dona Maria, uma moradora que a viu nascer, foi procurada pela prefeitura para assinar um contrato para se retirar de sua casa e ocupar um espaço a 7 quilômetros dali, ou ser indenizada pela benfeitoria. “Ela disse que não ia sair, e foi ali que começamos a criar o movimento. Fomos para a rua, fizemos abaixo assinado, estivemos no Ministério Público, seguimos a prefeitura em todos os lugares. Expulsamos a prefeitura de lá com o recado que de lá só sairia quem quisesse, e não sob pressão”, conta. No Ministério Público, ela recorda que a defensora não se dirigia a ela, apenas aos ‘doutores’. “Como uma representante mulher, negra e favelada, não era ouvida,  mas lembro que falei que quem conhecia a realidade local era a própria comunidade”.

A luta pelo território e pelo direito de existir e resistir foi grande, a prefeitura recuou, mas acabou por decretar que a área pretendida era de utilidade pública, ou seja, teria plenos poderes para indenizar e mandar embora quem quisesse. Mas a força da comunidade e do coletivo em construção acabou por derrubar também o decreto. “Fizemos um grande trabalho chamando a atenção para o pertencimento, mostrando aos moradores que eles pertencem àquele local e que não tinham que desistir de suas origens”, relata.  Reuniões, encontros, lives e outras ações foram realizadas pelo coletivo para conscientizar os moradores. Foi mostrado a eles a injustiça também no âmbito financeiro – enquanto o preço do metro quadrado da área era estimado em R$ 6 mil, a prefeitura colocou valor de R$ 120 o metro quadrado para fins indenizatórios da benfeitoria. “Criamos uma rede de articulação que mostrou para a sociedade que estamos aqui porque somos os donos e donas da terra e exigimos ser tratados como parte da cidade que precisa de serviços e paga caro por eles”.

Arte: Ismael Marques.

Texto: Luciana Radicione (FNA).

Núcleos da DEPESP elaboram parecer sobre PL 404/2020

Núcleos da DEPESP elaboram parecer sobre PL 404/2020

Os Núcleos Especializados de Habitação e Urbanismo (NE-HABURB) e de Defesa da Diversidade e da Igualdade Racial (NUDDIR) da Defensoria Pública do Estado de São Paulo (DEPESP) elaboraram um parecer conjunto acerca do Projeto de Lei nº 404/2020, de autoria da deputada estadual Erica Malunguinho.

O PL dispõe sobre a proibição de homenagens a escravocratas e a eventos históricos ligados à prática escravagista no âmbito da Administração Pública Direta e Indireta.

A justificativa do Projeto é de que os monumentos são materiais da memória coletiva e são utilizados para construir narrativas sobre o passado das sociedades e povos. No entanto, a História Brasileira ainda reproduz narrativas que excluem as experiências das populações negras e indígenas, empecilho que cria barreiras para efetivação plena da democracia.

Por meio do parecer, os Núcleos concluem que a proposta do PL “é de suma importância para restituir, a partir da reforma do espaço urbano – seus monumentos públicos e denominações de logradouros e edificações – , a verdade histórica sobre o holocausto da escravidão e para a consolidação de uma memória antiescravagista e avessa ao racismo sem a qual não é possível construir um futuro pautado pela igualdade racial e justiça social”.

Clique aqui e leia o parecer completo.

Foto: Dornicke (Lucas B. Salles) – Domínio Público

Nota técnica contra a Resolução CGSIM n. 64, de dezembro de 2020

Nota técnica contra a Resolução CGSIM n. 64, de dezembro de 2020

O Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico (IBDU) se manifesta, em nota conjunta com outras entidades, contrário à Resolução CGSIM n. 64, de 11 de dezembro de 2020, do Ministério da Economia, que “versa sobre a classificação de risco no direito urbanístico” e impacta diretamente na gestão municipal no que concerne ao licenciamento urbano.

Trata-se de ato administrativo normativo extenso, que pretende submeter o direito urbanístico a uma classificação de risco que, em conformidade com o princípio da liberdade econômica, permita uma flexibilização do licenciamento urbanístico nas cidades brasileiras.

A nota técnica também é assinada por:

  • BR Cidades;
  • Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA);
  • Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU);
  • Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB);
  • Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo (ABEA);
  • Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ);
  • Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Paraná (CAU/PR).

Clique aqui e leia a nota na íntegra.

#ElaspeloDireitoàCidade – Força feminina que passa de mães para filhas

#ElaspeloDireitoàCidade - Força feminina que passa de mães para filhas

Assim como hoje carrega suas filhas para as lutas, sua mãe também a carregava. Essa é Ceniriani Vargas da Silva, 33 anos, mãe de Dandara (11) e Tainá (5), moradora do Assentamento 20 de Novembro, em Porto Alegre, coordenadora do MNLM-RS e presidente da Cooperativa de Trabalho e Habitação 20 de Novembro. Há 14 anos, entrou de cabeça no MNLM e foi morar na Ocupação 20 de Novembro, com uma mochila nas costas e muitos sonhos coletivos de transformação social.

O Assentamento é fruto de uma luta que se iniciou em 2006, com a Ocupação  20 de Novembro e se concretiza em um prédio público federal, cuja obra foi abandonada há cerca de 50 anos. Ni, como é conhecida, enfrentou um despejo, uma remoção pelas obras da Copa, muita precariedade e  sentiu na pele cada mudança de prioridades dos governos que foram passando. Mas perseverou junto com o pessoal do movimento até conquistar a concessão do imóvel para 40 famílias de baixa renda.

“Desde criança tenho lembranças de muitas mobilizações comunitárias e reuniões do Orçamento Participativo com minha mãe.  Meus pais quando foram expulsos do campo, na década de 1980, vieram ocupar um cantinho no Morro em Porto Alegre, então, eu nasci e cresci em ocupação. Aprendi na prática que através da nossa organização comunitária fomos conquistando direitos básicos como saneamento, pavimentação, luz e água. Compreendi desde cedo que nós que nascemos pobres temos que lutar para garantir nossos direitos e nos somar ao máximo possível de pessoas”, diz a ativista formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).  Além da própria experiência familiar, Ni trilhou seus próprios passos na luta ainda muito jovem. Foi militante do Movimento Estudantil, Movimentos de Juventude e Movimento Feminista (Ong Themis) e sua aproximação com o MNLM se deu justamente desenvolvendo atividades de formação com a juventude e as mulheres nas ocupações. “Na militância, também descobri que existem universidades públicas, fiz um cursinho pré-vestibular popular e fui a primeira pessoa de minha família a fazer curso superior” relata.

No Assentamento 20 de Novembro, um símbolo nacional de luta pela moradia, serão construídos 40 apartamentos para famílias de baixa renda, com acessibilidade universal, sustentabilidade ambiental e econômica, produção de energia solar, reuso de água da chuva (cisterna), horta orgânica e a separação e comercialização de resíduos recicláveis para redução de custos de condomínio. O projeto prevê também espaços  para geração de renda através do trabalho solidário, espaço cultural, de formação, cozinha comunitária, salão de festas, pracinha, biblioteca e ciranda para as crianças. “É o lugar onde quero que minhas filhas cresçam, com qualidade de vida, mas principalmente sem o risco de sermos despejados novamente”.

Para Ni, o 20 de Novembro representa mais que a conquista das 40 famílias. É um projeto idealizado dentro de uma perspectiva de construção de comunidade e de cidade mais inclusiva e sustentável, uma experiência concreta a ser fortalecida e reproduzida. “O Assentamento é um símbolo da luta pela reforma urbana, representa o lugar pra realizar na prática o que o MNLM, a Confederação Nacional de Associações de Moradores (Conam) – organização parceira do projeto – e seus apoiadores defendem como política habitacional com garantia do direito à cidade para todos e  toda”, afirma.

Arte: MNlM/Divulgação.

Texto: Luciana Radicione (FNA).

#ElaspeloDireitoàCidade – Dona Chica, o nome forte da Cidade do Sol

Dona Chica, o nome forte da Cidade do Sol

A transformação do Sol Nascente/Pôr do Sol em região administrativa foi um marco na vida dos quase 90 mil habitantes do local. Muitas melhorias em infraestrutura foram implantadas nos últimos anos para levar dignidade, qualidade de vida e cidadania à região que, pouco a pouco, vem ganhando nova cara. Muito dessa nova realidade está sendo possível graças a um nome e sobrenome: Francisca Ambrósio do Nascimento, a Dona Chica, 73 anos.

Moradora da Pôr do Sol praticamente desde que chegou à região de Ceilândia (DF), ela participou da construção de uma cidade pela qual lutou desde o início, há mais de 48 anos. Passou por muitos episódios tristes, viu casas serem destruídas, todo tipo de agressão do poder público sobre as centenas de famílias que lá residem. Mas ela nunca esmoreceu e a luta sempre foi grande para alcançar a realidade de hoje. Os setores habitacionais ainda são um sonho em construção, muito precisa ser feito na Cidade do Sol, a 32ª região administrativa do Distrito Federal, uma conquista recente graças a pressão da comunidade liderada por Dona Chica pela aprovação do Projeto de Lei n° 350/2019 que transformou a  Sol Nascente/Pôr do Sol em cidade.

Quem duvida que não seja possível conquistar mais melhorias quando se trata de Dona Chica, prefeita da Pôr do Sol para mais uma gestão, até 2023. Moradora do mesmo local ainda quando a área era tomada por chácaras, ela agora se empenha em reconquistar os R$ 100 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) que não foram liberados a tempo de projeto de obras ter sido licenciado para dar andamento a trechos de pavimentação. “Não teve nenhum parlamentar com a capacidade de impedir que o dinheiro fosse embora. Agora estamos brigando com deputados distritais e federais e senadores para ver se colocam verba de emenda pra terminar as obras de infraestrutura que faltam”, relata.

Dona Chica é uma mulher forte em todos os sentidos. Enfrenta os percalços com a cabeça em pé, o que inclui algumas desavenças com outras lideranças da própria comunidade que volta e meia insistem em ‘cutucar’ o que ela faz. “Eu não me preocupo com isso. Se meus opositores trabalharem em benefício dessas famílias para mim está bom.” Divorciada desde 2004 porque o marido mandou ela escolher ou ele ou a comunidade, hoje ela encontra forças também na sua família de sangue: são 3 filhos (duas mulheres e um homem) e quatro netos (duas meninas e dois meninos). Mas o coração tem espaço para muita gente, como todos lá da Sol Nascente/Pôr do Sol já sabem.

Arte: Carolina Jardine (FNA).

Texto: Luciana Radicione (FNA).

Betânia Alfonsin, diretora geral do IBDU, participa de podcast da FNA

Betânia Alfonsin, diretora geral do IBDU, participa de podcast da FNA

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, o FNACAST, podcast da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA), convidou lideranças femininas de movimentos sociais engajadas na luta pelo direito à moradia e mulheres que estão à frente de entidades classistas para falar sobre igualdade e resistência.

Uma das convidadas foi Betânia Alfonsin, diretora geral do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico (IBDU).

Ouça já! O podcast está disponível no Soundcloud e no Spotify.

8 de Março: O poder feminino de transformar a vida do outro

8 de Março: O poder feminino de transformar a vida do outro

Quem passa à margem de uma comunidade de moradores não sabe o tamanho do enfrentamento diário que ali se desencadeia. São carências de todos os tipos, numa rotina de luta por dignidade e sobrevivência que – felizmente – vem ultrapassando as fronteiras da própria comunidade. As mulheres são maioria, muitas trabalhadoras chefes de família, mães e avós que, diante de tantas injustiças, vestiram a camiseta de movimentos sociais em busca de melhorias para si e para muitos.  São elas que ouvem, dão voz, compreendem, agem e lideram pelo bem comum e conseguem transformar e dar dignidade a milhares de famílias em situação de vulnerabilidade social e esquecidas pelo poder público.

Neste 8 de Março, a Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA) e o Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico (IBDU) se uniram para destacar o protagonismo feminino no enfrentamento das mazelas das cidades. De norte a sul do Brasil, trouxemos exemplos de líderes comunitárias que perceberam que o direito de existir passa também pelo direito de resistir.

“Arquitetos e urbanistas fazem parte dessa luta, estão próximos da realidade das comunidades e no enfrentamento à falta de políticas públicas para aquele que é um direito fundamental de todo cidadão: o direito à moradia e a uma vida digna”, destaca a presidente da FNA, Eleonora Mascia. A Federação, junto com os sindicatos filiados de todo o país, está voltada permanentemente para as causas das cidades, que se fazem urgentes. “Nossa pauta de lutas é pela reforma urbana, por cidades mais inclusivas para todos e cidades com participação plena e capazes de oferecer o melhor para a sociedade”, pontua a arquiteta e urbanista.

Nesta ação do Dia Internacional da mulher, a FNA e o IBDU destacam o papel de mulheres que batalham para que possam fazer seus direitos. “São exemplos que representam o grande contingente de mulheres  e homens que lutam no Brasil para que, de fato, a gente possa alcançar o pleno exercício da democracia e da cidadania”, pontuou.

A presidente do IBDU, Betânia de Moraes Alfonsin, reforça que o dia 8 de março deixa de ser uma data voltada apenas às celebrações e homenagens, e passa a ser marcada pelo protagonismo feminino à frente de diversas lutas sociais que foram evidenciadas pela pandemia da Covid-19, em um contexto que desnudou a desigualdade no território brasileiro. “Elas são aquelas que estão na linha de frente, na confecção de máscaras, na coleta e na distribuição de cestas básicas, na orientação de cuidados com higiene e saúde, na distribuição de alimentos e no contato com os poderes públicos”, ressalta Betânia. Ela destaca que as mulheres, especialmente as que se encontram em maior situação de vulnerabilidade social, ganharam visibilidade também na luta pelo direito à moradia.

“Na pandemia, esse movimento se potencializou, uma vez que os despejos realizados no cenário de calamidade pública colocam em risco a vida de milhares de pessoas, privadas das medidas de prevenção à Covid-19, como o isolamento social. São as figuras femininas que adicionam aos seus desafios diários já presentes mais uma luta em prol de suas vidas, de suas famílias e comunidades.’

O Especial ELAS PELO DIREITO À CIDADE vai até o final do mês de março, dando voz a lideranças femininas de importantes movimentos e entidades espalhados pelo Brasil. Entre as entrevistadas estão líderes comunitárias como Neila Gomes, de Manaus, e Francisca Ambrósio do Nascimento, do Distrito Federal. Na próxima semana, começam a ser publicados os perfis desses mulheres com representatividade regional e de movimentos. Fique de olho nas redes sociais do IBDU para não perder nenhum conteúdo da ação: Facebook e Instagram.

Fotos: Marcelo Mariante de Queiroz, Ismael Ferreira, Cila Reis e MNLM/divulgação.

Arte: Carolina Jardine (FNA).

Texto: Luciana Radicione (FNA).