IBDU lança nota falando sobre as enchentes e o direito à cidade

Nesta quarta-feira (01/04), o IBDU lançou uma nota falando sobre o problema histórico das enchentes e catástrofes que tendem a acontecer nas estações mais chuvosas, e qual a relação disso com o direito à cidade.

Segundo o texto, redigido por Mônica Antonia Viana, Lenimar Gonçalves Rios (ambas da Unisantos) e Tatiana Cotta  (UFRRJ), as chuvas são um problema para o Rio de Janeiro desde o século XVI.  Dão destaque às enchentes do século XX, sendo que a maior enchente ocorreu no ano de 1966.

Assim, falam das enchentes mais atuais, como as ocorridas no começo deste ano em Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro; afetaram principalmente as regiões metropolitanas da Baixada Santista e do Rio. Elas relatam o cenário de devastação, alarme e estresse vividos pela população.

Após apresentarem tais ocorrências, as autoras questionam se estas eventos seriam mesmo “meros desastres causados pela ocorrência de fortes chuvas”, como diriam autoridades do poder público à população, ou são tragédias anunciadas, que poderiam ser prevenidas por um planejamento de investimentos em programas e obras de prevenção, associadas a uma política habitacional, em especial de Habitação de Interesse Social – HIS e na elaboração e implementação dos planos municipais de saneamento.

Usam estes questionamentos de gancho para abordarem a precarização da moradia e a um modelo de urbanização acelerado, tardio e excludente, algo que gerou, nas palavras das professoras, “um grande déficit habitacional e uma enorme demanda por serviços públicos essenciais, como água tratada, esgoto, coleta de lixo e drenagem de águas pluviais, tudo extremamente necessário para assegurar o direito à cidade a todos.”

Observando os diversos estudos que vem sido lançados e algumas medidas tomadas, as autoras concluem que os municípios tem instrumentos para intervir nas situações que colocam em risco um número significativo de famílias, mas este suporte está bastante subutilizado.

Entenda melhor lendo o artigo aqui.

 

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A chuva do presente que anuncia o passado: uma questão concreta na urbanização de São Paulo

Várzea - área

Por Maíra Rosin*

Na manhã de segunda feira, 11 de março, São Paulo e parte da região do ABC paulista amanheceram completamente alagadas pela forte chuva que caia desde a noite do dia anterior. Muitos ficaram ilhados nos telhados de suas casas esperando resgate de botes ou helicópteros. Alguns perderam a vida.

Não é novidade para ninguém, tampouco para os paulistanos, que as chuvas de fevereiro/março são intensas e severas, castigando a cidade e, claro, prejudicando ainda mais as pessoas que moram nas várzeas dos rios. Porém, é importante que coloquemos também sob perspectiva histórica as relações de alteração do espaço que acabaram por provocar tragédias como a de ontem.

São Paulo é uma cidade cortada por centenas de cursos d’água onde hoje, a grande maioria, não pode mais ser vista pois está canalizada, sendo que muitos deles estão soterrados por grandes avenidas como a Sumaré, 9 de Julho e 23 de maio, por exemplo.

Não é de hoje que esses espaços urbanos sofrem com inundações, sendo a enchente de 1887 a primeira a atingir a cidade com um núcleo urbano mais consolidado, chegando a tomar uma grande área na região da várzea do rio Tamanduateí. As proporções dessa enchente foram tão grandes que acabaram registradas até mesmo pela iconografia.

Várzea do Carmo (Militão Augusto de Azevedo) – 1887
Fonte: Casa da Imagem – Tombos DC 0000351 e 0000352

 

As obras de retificação da calha do rio Tamanduateí começaram em seguida e as áreas das várzeas passaram a ser motivo de disputa para que recebessem intervenções urbanísticas e fossem ocupadas. Logo, o período de cheias que sempre existiu na cidade se tornaria um problema com a ocupação humana dos espaços antes ocupados somente pelas cheias dos rios.

Outras enchentes de grandes proporções voltaram a acometer a cidade, sendo a de 1929 uma das mais referenciadas. Apesar do envolvimento da empresa Light & Power Company, cujos interesses nas áreas sujeitas a inundações para que fossem “saneadas e beneficiadas[1]” e da abertura das comportas na região do Alto Tietê, as fortes chuvas de fevereiro daquele ano também contribuíram para uma enorme inundação na cidade, deixando pessoas ilhadas que tiveram de ser retiradas de suas casas por botes do corpo de bombeiros.

A própria companhia fez imagens em seu acervo e colocou pequenas placas de bronze pela cidade de São Paulo para marcar o nível da enchente, como podemos ver a seguir:

Alto da Lapa
Retiro, olhando-se em direção ao Alto da Lapa. Ao alto (esquerda) vê-se a ponte da EFS e a bomba da Continental. Confluência dos Rios Tietês e Pinheiros. Bairro de Pinheiros, São Paulo (1929)
Fonte: Fundação de Energia e Saneamento – ELE.DPH.TEM.G4AP04.013
Rua Augusta
Rua Augusta – Jardim Paulista – São Paulo
Da ponte olhando acima do riacho.
Fonte: Fundação de Energia e Saneamento – ELE.DPH.TEM.G4AP04.020
Enchente 1929 placa
Placa de bronze marcando o nível da enchente de 1929 situada na Rua Porto Seguro, no Canindé
Fonte: Acervo pessoal

 

O Grupo Hímaco (Unifesp/APESP), se debruçou sobre a referida enchente, elaborando um mapa de sua extensão. Podemos ver a seguir o leito original do rio, ainda antes de seu processo de retificação e a forma como as águas tomaram a parte urbanizada da cidade para além das várzeas e dos meandros do rio.

enchente 1929
Visualização da enchente de 1929 produzida a partir do Modelo Digital de Cidade da Prefeitura de São Paulo e da altura das águas baseada na tese da Profa. Dra. Odette Seabra, que afirma ter a enchente alcançado o nível de 724m.
Fonte: Grupo Hímaco

 

Desde então a cidade passou por muitas e intensas remodelações urbanas, sobretudo no que se refere às suas águas. Soterrados, os rios e córregos deram lugar às modernas e asfaltadas ruas e avenidas que formam nossa metrópole, ocupando ainda mais as áreas das várzeas e impermeabilizando o solo e agravando o problema das enchentes na cidade e na região metropolitana. Retificados, os rios Tietê, Tamanduateí e Pinheiros não encontram o espaço natural ocupado por seus meandros no período de cheias, fazendo com que seus transbordamentos atinjam as pistas agora ocupadas por carros e as residências daqueles que vivem em suas imediações. Soterrados, outros tantos transbordam.

É importante compreender que mesmo com as falhas de ação do poder público no combate e prevenção aos danos das enchentes, precisa ficar claro para a população,  imprensa e até mesmo aos governantes que as razões históricas de tais eventos são parte integrante do espaço e dos problemas que o mal planejamento e o descaso com os rios afetam a cidade até hoje. A questão vai além de apontar culpados pontuais, mas compreende todo um cenário histórico de sucateamento dos rios de São Paulo e região.

A água apenas está ocupando o espaço que sempre lhe pertenceu, sendo de uma prepotência sem fim a ideia de que nós e a tecnologia somos capazes de “domar as águas”.

Por fim, a frase do Historiador Diógenes Sousa é a que mais contempla as ocorrências de ontem e serve de alerta para que possamos começar a repensar nossa atuação junto às nossas águas, e, quem sabe, repensar as intervenções urbanas que esconderam a água: “Uma cidade que retalha seus rios sofre retaliações da natureza”.

 

Bibliografia:

[1] FERLA, Luis [et. al]. “A enchente de 1929 na cidade de São Paulo: memória, história e novas abordagens de pesquisa”. Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro – v.8 – 2014 – p 149-166.

JORGE, Janes. Tietê, o rio que a cidade perdeu: O Tietê em São Paulo, 1890-1940. São Paulo: Alameda, 2006.

ROLNIK, Raquel. A cidade e a lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo. São Paulo: Studio Nobel/Fapesp, 2003.

SANT’ANNA, Denise B. De. Cidade das Águas. Uso de rios, córregos, bicas e chafarizes em São Paulo (1822-1901). São Paulo: Senac, 2007.

SANTOS, Fábio Alexandre dos. Domando águas. Salubridade e ocupação do espaço na cidade de São Paulo, 1875-1930. São Paulo: Alameda/Fapesp, 2011.

SEABRA, Odette Carvalho de Lima. “Enchentes em São Paulo. Culpa da Light?” in Memória. São Paulo: Departamento de Patrimônio Histórico da Eletropaulo, ano 1, nº 1, 1988.

_____________________. Os meandros dos rios nos meandros do poder. São Paulo: tese de Doutoramento, FFLCH, USP, 1887.

Grupo Hímaco: www.unifesp.br/himaco

 

*Maíra Rosin é Mestra em História e Doutoranda em História da Arquitetura e do Urbanismo na FAU-USP. Apoio Fapesp (2016/25441-8)